23/04/2020
| Aproveitando o gancho da foto da Fernanda Simon, , que ontem perguntou qual era a matéria-prima do seu lenço, para falar sobre as materias-primas que uso. |
90% da matéria-prima que uso em cursos ou em peças para clientes vêm das lojas de resíduos do Bom Retiro. Eu amo essas lojas e desde a época em que eu estava na faculdade sempre usei tecidos que eu garimpo por aí. Meu trabalho de graduação, por exemplo, foi feito com veludos dos anos 80 da extinta Suape Têxtil, e na sequência daquela época, fiz 2 coleções para A Mulher do Padre usando tecidos de descarte, que vão parar nessas lojas de resíduos, quase como um aterro sanitário de tecidos, "O Lixão".
O ateliê está no coração do Bom Retiro, local de várias confecções em SP, e todos os dias passo em uma ou duas lojas para olhar o que chegou. O bairro tem várias lojas de resíduos: estoque parado, cortes para piloto das tecelagens, tecidos antigos, ou tecidos que, de tão mal tratados que foram no armazenamento, estão em farrapos. Muitos tecidos que eu compro estão sofríveis, manchados, sujos, com defeitos e furos, uma dó. Outro dia eu comprei 100 metros de seda com algum tipo de viscose, um achado, e ele só estava lá jogado na poeira e tomando sol, porque estava todo grudado com uma fita crepe que soltou a cola, manchado de umidade, e sua ourela toda amassada, já quase com memória, de tanto tempo em pé encostado na parede tomando sol e chuva. Deu muito trabalho para limpar, tirar toda aquela cola de metros e metros.
Vejo que vários tecidos que eu compro, muitos realmente incríveis, de excelente qualidade, foram mal armazenados, e por isso acabaram no aterro de tecidos, pois a confecção não vai perder tempo, dinheiro para ressuscitar tecidos antigos, que só vão dar trabalho, vão comprar novos, mais baratos no final...
Fazer programação de compra de tecido em confecção realmente é um tiro no escuro e a indústria, da forma como ela opera, força essa aposta. Depois vou escrever um post de como é essa logística de compra de tecidos e aviamentos nas confecções e por que toda confecção tem um estoque incalculável.