08/07/2021
❤️❤️❤️❤️
Obrigado " Estórias da Cidade"
Sr. Meirim, o Sapateiro
Todos o conhecem por Sr. Meirim, o sapateiro, no Bairro das Enguardas e arredores, mas foi com o nome de José Duarte Araújo que se apresentou ao mundo, em 1937, num outro bairro, o do Carandá.
Nasceu no seio de uma família numerosa, 10 crianças à mesa, e é filho de uma cesteira de ráfia e de um sapateiro, com quem aprendeu o mester.
Frequentou a escola primária de São Lázaro. Interrompeu a quarta classe e com ela toda a formação académica, no dia em que o professor lhe acertou o passo por malandrices de menino.
Cada um sabe onde lhe aperta o sapato e ao Sr. Meirim deixou de apertar o sapato escolar. Por isso, começou a trabalhar desde cedo ao lado do pai na sua oficina, para um fabricante de calçado em Guimarães.
Todas as segundas-feiras, um lugar na camioneta Braga-Guimarães aguardava pelo menino Meirim. Para lá, levava obra acabada; para cá, trazia couro cortado às peças, pronto a ser transformado em belíssimos exemplares de calçado durante a semana.
Aos 16 anos, já um homenzinho, foi acometido pelo arrojo de propor ao dono da fábrica que lhe cedesse dois pares de sapatos à experiência. Na semana seguinte, levou-os prontos à parte da encomenda do pai e a partir daí, passou a garantir um rendimento extra que lhe custava um serão, mas aguçava o engenho.
Aos 21 anos casou com a Sra. Joana Rosa Gonçalves Costa, que desenvolvia uma profissão que poucos conhecerão – apanhava malhas fugidias de meias. Hoje, é certo e sabido que um foguete numa meia, condena-a ao lixo, mas, antigamente, não se enterrava tão facilmente um têxtil. E a Sra. Joana era particularmente bem-sucedida nesta matéria porque enquanto as colegas de profissão deixavam um nó que evidenciava o conserto, a Sra. Joana partia sem deixar provas.
O Sr. Meirim não lhe ficava atrás em qualidades e qualidade. Antes de se lançar por conta própria, trabalharia 14 anos para fabricantes de calçado e seria ele a estrear o salário de 40 escudos/dia na fábrica, como sapateiro de primeira, quando na época se praticava 30 e 35 escudos.
Depois, criou a sua oficina no Bairro do Carandá, continuou no das Enguardas, trabalhou muitas horas sozinho e outras na companhia dos filhos. Fez milhares e milhares de pares de sapatos, nunca comprou nenhuns e ele até calça pouco, um módico 37.
Deu corda a sapatos com destino a todo o país e além-fronteira: Toronto, Brasil e Versailles. Das suas mãos saíram sapatos e chinelos de folclore, de luva, botas, chuteiras de futebol, sapatos comuns e os “fora-de-série”, que nem sempre se vendem aos pares de iguais. Cá entre nós, há quem se queixe da pedra no sapato, sem nunca ter levado com uma.
E porquê o nome de “Sr. Meirim”? A culpa é de quem o “batizou” - o “Buru”, ex-jogador de gabarito do “Sporting Clube Leões das Enguardas”, do qual o Sr. Meirim chegou a ser treinador e é sócio desde a formação, não fosse o futebol o desporto que, por excelência, se pratica com os pés.
Hoje, continua a fazer sapatos, aos 83 anos, quase 84, mas é ele que define a pedalada. Não por acaso, anda à volta de uns chinelos de cor dourada, tão bonitos por fora, como macios por dentro, um singelo 35. Podiam ser para a Cinderela, mas destinam-se a uma senhora Joana que percebe tanto de meias como o marido de sapatos.
Texto: Patrícia Ferreira
Fotografia: Carlos Teixeira
Bairro das Enguardas, 8 de Julho de 2021