04/07/2025
Ouvia há pouco, na televisão, o Marco Caneira a dizer que para a família do Diogo J. e do André Silva, este é o melhor dos piores dias. O Marco sabe do que fala, perdeu uma filha há alguns anos. Nunca tinha pensado nisto desta forma, “o melhor dos piores dias”, mas é isto. Quando se perde alguém, sobretudo desta forma, o choque funciona como uma espécie de anestesiante. Há a incredulidade, a negação, a dor também, claro, a espaços, mas é tudo tão inverosímil que não se consegue perceber, de imediato, a verdadeira dimensão da tragédia. E depois há as burocracias, a escolha de coisas que nunca pensámos ter de escolher, o conforto de muita gente à nossa volta, as conversas de circunstância, um corpo que dá uma falsa sensação de presença. Ainda está ali. De alguma forma, ainda está ali. E tudo isto distrai-nos, quase que parece que não é a nós que está a acontecer, somos só os espectadores do pesadelo de alguém. Mas depois vem o depois. A chegada a casa, o silêncio horrível, o olhar à nossa volta e sentir que, estando tudo no mesmo sítio, está tudo irreconhecível, o tentar pensar como será a vida dali a um ano, a dois, a vinte, quando não se consegue imaginar sequer como sobreviver aos próximos cinco minutos . A ausência insuportável, os ses, os porquês, a cabeça a dar voltas sem parar, o que é que podia ter sido diferente, o que é que podíamos ter feito de diferente. O dia de hoje é horrível, mas é o melhor dos piores 💔