Nas margens do rio Bonga, nos confins da África profunda, vivia e trabalhava uma costureira sem idade. Das suas mãos, diz-se, saíram os mais belos e nobres trajes que vestiram pequenos príncipes de toda a parte. A sua história é tão antiga como a do mundo desde que é mundo e pouco sabemos dela. Conta-se que deu à luz o filho de um príncipe e que lho tiraram por ela ser da plebe; e que desde então
nunca mais parou de costurar roupas para bebé, na esperança de o voltar a ver. E assim foi durante meses e anos, e anos e meses, e meses e anos. Essas roupas ganharam fama e de todo o lado reis e imperadores enviavam-lhe mensageiros para que a costureira fizesse fatos para os seus herdeiros. Um dia a costureira, chegada a hora de descansar, passou os segredos do seu ofício a um príncipe mouro que mandou tatuar no peito os moldes utilizados pela velha feiticeira. Ora o príncipe manteve o segredo até se mudar para o Porto e casar com uma princesa visigótica das Belas Artes. Com saudades de África, e farto da tirania ocidental do azul e rosa, o agora rei mouro pediu à sua rainha que costurasse as roupas para o primeiro filho do casal. A rainha, utilizando os planos que o marido trazia no peito e os tecidos que ela própria havia juntado das suas viagens, retomou assim a tradição da velha costureira que habitava as margens do rio Bonga. On the bank of the Bonga river, in the confines of deep Africa, an ageless seamstress lived and worked. People say that from her hands came the most beautiful and noble garments which dressed little princes of every realm. Her story is as old as the history of the world itself, and we know so little about it. It’s told she was the mother of a prince and the child was taken from her because the seamstress was rabble. In hopes of seeing her child once again, she never stopped sewing baby clothes since. And so she went on for months and years, years and months and months and years. Those garments became notorious and
from everywhere kings and emperors sent her messengers requesting clothes for their heirs. One day, when the time to rest arrived to the seamstress, she passed her craft secrets to a Moor prince who tattooed on his chest the molds used by the old sorceress. The Moor prince kept them secret until he moved to Porto and espoused a Visigoth princess from Fine Arts. Missing Africa and fed up with the pink and blue tyranny, the now renowned Moor king asked his queen to sew the garments of their first child. The queen used the plans on her husband’s chest and the fabrics she gathered during her travels, to pick up the tradition of the old seamstress who lived in the margins of the Bonga river.